Obstinação Canina

Em 1993 conheci Manuel Nardi, vaqueiro que inspirou o personagem Manuelzão, do livro Manuelzão e Miguilim, de João Guimarães Rosa. Na época o vaqueiro estava com 92 anos de idade, extremamente lúcido, com a memória afiada dos grandes contadores de história.

Na ocasião, estava gravando um documentário em vídeo, que seria apresentado como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, que cursei de 1990 a 1993, na UNESP Bauru. Em breve postarei mais detalhes desse vídeo.

Manuelzão morreria alguns anos depois, mas guardei algumas histórias pitorescas que aconteceram nas vezes que visitei o pequeno vilarejo em que morava, Andrequicé, no norte de Minas Gerais. 

“Aqui, até o santo deu as costas para Andrequicé”. Esta foi a forma irônica, meio que literária, que o vaqueiro Manuelzão Nardi encontrou de explicar o motivo de todas as casas do pequeno vilarejo em que vivia terem sido construídas nos fundos da capela de Nossa Senhora das Mercês. 

O fato é que bem em frente a essa capela passa um riacho onde homens e crianças se banham todos os dias. Fotografando os arredores do vilarejo presenciei a cena, que me chamou a atenção. A pele escura dos rapazes contrastava com o branco da espuma e indicava a oportunidade para uma boa foto. Bom…Mas esta é outra história. 

O fato mais interessante ocorreu quando voltei à casa de Manuelzão e Dona Didi, sua esposa, antes mesmo de os garotos terminarem seu banho. Guardei meu equipamento fotográfico e ficamos, os três, parados alguns minutos no pequeno banco de madeira que havia na frente morada do casal, quase uma varandinha. 

De repente, surge, próximo à capela, um cachorro. “É o cachorro dos meninos”, prontificou-se a explicar Dona Didi, em seguida soltando uma gargalhada. Sem entender, percebi que o cachorro vinha subindo a rua, a passo acelerado, altivo, determinado. 

Foi chegando mais perto, mais perto, mais perto até que percebi que trazia algo em sua boca. Mais perto e percebi que tinha à boca um saquinho. Mais perto e deu pra ver que o saquinho levava coisas de banho, sabonete, pente e esponja utilizados pelos rapazolas que se banhavam no rio. 

Dona Didi, que sorridente se divertia ao ver minha cara de espanto e encantamento, explicou que todos os dias aquele cachorro subia com os trecos de banhar. Ai de quem se atrevesse obstruir o caminho do obstinado animal. Corajosamente ele desafiava os passantes, desviava, virava, voltava e seguia confiante, levando os pertences de seu dono, até que estivessem a salvo de possíveis obstáculos. Entregava em casa. Não me lembro o nome do cachorro e nem mesmo deu tempo de fazer uma foto. Mas nunca mais me esqueci de sua obstinação, de sua determinação de sertanejo, tal como um Riobaldo. Imagine e veja.

Obs.: infelizmente não tenho uma foto do episódio, mas apresento a vocês uma foto do Manuelzão, clicada por Angelita Bogado, minha namorada na época e quem me acompanhou durante as gravações do meu documentário sobre ele. 

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