Os caminhos (reais) de Grande sertão: veredas

No final dos anos 1990 iniciei uma série de reportagens sobre o Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. Era também o início de uma carreira como fotojornalista freelancer e de muitas mudanças em minha vida. 

Árvore típica do cerrado – Parque Nacional Grande sertão: veredas, norte de Minas Gerais

Desde então muita gente me pergunta como tracei as trilhas pelo norte de Minas Gerais (cenário da obra) e como me embrenhei nesse vasto mundo rosiano sem perder o foco de personagens, lugares e histórias. 

A reposta está basicamente num livro despretensioso intitulado Itinerário de Riobaldo Tatarana, do geógrafo Alan Viggiano. Neste livro ele traça em mapas as andanças do personagem principal de Grande sertão: veredas e prova que a literatura de Rosa bebe no real de forma surpreendente. Segundo ele, quase todos os lugares citados existem de verdade. 

Capa da primeira edição de Itinerário de Riobaldo Tatarana

Assim, consegui criar meus próprios caminhos, minha própria geografia literária e seguir em busca do que ainda havia do universo de um dos maiores clássicos da literatura brasileira. 

Em 2007, ainda apaixonado pela obra (não que não esteja agora) resolvi entrevistar Alan Viggiano e saber um pouco mais acerca desse trabalho incrível e que tanto havia me inspirado. A entrevista foi publicada neste mesmo ano na revista Entrelivros, e agora reproduzo aqui, no meu blog: 

A GEOGRAFIA DE GUIMARÃES ROSA

por João Correia Filho

Após o encontro inesperado com um sertanejo em seu cavalo, à beira de uma estrada deserta, o pesquisador e escritor Alan Viggiano teve a idéia de reconstruir os passos da personagem principal de Grande sertão: veredasPara escrever Itinerário de Riobaldo Tatarana,lançado em 1974, pesquisou em mapas de Minas Gerais, Bahia e Goiás nomes de lugares que pareciam pura invencionice do escritor mineiro. Descobriu que a grande maioria realmente existe, tal como citados nas mais de 500 páginas que compõem o cenário rosiano. Em sua quarta edição, de 2007, o livro ainda é uma referência àqueles que desejam adentrar o cerrado brasileiro em busca do mítico universo de João Guimarães Rosa. Em entrevista exclusiva, Alan Viggiano conta como foi o processo que o levou a desvendar as trilhas de um dos mais importantes viajantes da literatura brasileira. 

Entrelivros: Como surgiu a idéia de escrever Itinerário de Riobaldo Tatarana?

A própria inspiração pra esse trabalho surgiu numa viagem que fiz por Minas Gerais, no início da década de 1970. Eu ia de automóvel de Brasília pra Belo Horizonte quando entrou na frente da estrada, muito timidamente, um cavaleiro típico da região, com seu chapéu característico, um cavalo pequeno, mas ágil. Logo me veio à cabeça o universo de Guimarães Rosa. Estava na BR 040, nas imediações do rio do Sono, que é onde ocorre a batalha final de Grande Sertão: Veredas. Então comecei a reparar nos nomes da própria estrada e vi que havia muitas semelhanças entre o real e o ficcional. Antes desse meu livro, alguns pesquisadores, escritores de altíssimo gabarito, tinham dito que todos aqueles nomes tinham sido inventados por Rosa. Fui percebendo, depois dessa viagem, que praticamente todos os nomes são reais, que ele inventou uma pequena minoria deles. 

EL.: A partir de sua idéia, como foi o início do processo? A apuração foi feita primeiro em mapas ou com visitas à região?

AV:Eu visitei alguns lugares chave antes de escrever o livro, para entender o cenário real circunscrito a uma pequena parte do leste de Goiás, uma pequena parte do sul da Bahia e uma grande parte do norte e noroeste de Minas Gerais. Fui a pontos bastante significativos, como a cidade de Pirapora e a um vilarejo próximo dali chamado Paredão de Minas, onde se dá o confronto final. Estive também na cidade Urucuia, na margem do Rio Urucuia, que é um rio muito citado por Riobaldo. Aliás, no livro há dois rios muito importantes: o São Francisco e o Urucuia. Nesses dois rios eu tive noção do ambiente do livro, não só ambiente físico, geográfico, mas como também do universo humano que reside ali. Depois o trabalho foi feito em mapas municipais e estaduais, a maioria, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, cujo diretor naquela época era o professor Olimpio Luís de Bessa. Na medida em que ia pesquisando, identificava os locais mais importantes da história. 

EL.:O Senhor recebeu alguma crítica ao livro?

O meu livro foi criticado porque eu digo que o Guimarães Rosa foi um grande repórter. É uma brincadeira, porque, obviamente, eu sei da importância dele como escritor. Digo isso porque ele foi também um grande pesquisador. Ele viveu no interior de Minas Gerais, foi médico rural, tinha contato direto com o povo do lugar e conhecimento da região. E tinha o hábito de anotar tudo que encontrava, tudo mesmo. 

EL.: Também é fácil perceber que nessas pesquisas João Guimarães Rosa bebeu muito na oralidade do sertanejo para escrever seus livros. O senhor encontrou exemplos disso, poderia dar algum?

Folia de Reis na cidade de Ponto Chique, norte de Minas Gerais

Claro. Eu sou de Minas Gerais, mas da região leste, de Inhatum, próximo a Governador Valadares. Por ali há muitas expressões que ele usou e que estão presentes na cultura popular. Um exemplo típico está ali pela página 16, quando o Riobaldo diz: “pão ou pães é questão de opniães”. Isso é uma frase que minha mãe dizia, quando eu ainda era menino. Você pesquisando vai ver que tem muitos exemplos desse, de expressões que ele resgatou.Às vezes até lugares comuns, mas que foram muito bem trabalhados por ele e ganharam nova vida na literatura. 

EL.: E o falar das pessoas da região que o senhor andou, se parece com a “língua” criada por Rosa?

Sim, claro. Ele bebeu muito na oralidade sertaneja. E quando penso nisso, sempre lembro de uma história de um tal de Seu Joaquim, que era marceneiro na região que cresci, trabalhava com meu pai. Era desses mineiros típicos mesmo. Os meninos ficavam brincando perto dele, ele ficava bravo e gritava: foge fora cambada de corja! Foge fora cambada de corja! Algo bem rosiano, eu diria. 

EL.: E os nomes dos lugares, mudaram muito?

A.V.:Falo sobre a questão das mudanças dos nomes de algumas localidades. Riobaldo Tatarana discute isso também. Os locais mudam de nome, o povo modifica o nome dos locais. Eu encontrei durante minha pesquisa um lugar, por exemplo, que era chamado de lugar do touro, mas, que na verdade era Logradouro. O povo do lugar adaptou à sua realidade. E é sempre assim. Outro exemplo é a cidade de São Romão, citada por Riobaldo por ter se chamado anteriormente de Vila Risonha. Se você for pesquisar na história dessa cidade, vai ver que ela realmente teve esse nome quando ainda era uma vila. Guimarães não inventou esse fato. 

Museu Casa João Guimarães Rosa – Cordisburgo-MG

EL: Rosa descreve duas vezes em Grande Sertão: Veredasa passagem dos jagunços por um lugar chamado Liso do Sussuarão. Muitos pesquisadores dizem que o local é totalmente inventado. O senhor encontrou nos mapas alguma referência a esse local mítico da literatura.

AV.:Na realidade eu nunca visitei o local que pode ter inspirado o Liso do Sussuarão, mas seguindo no itinerário de Riobaldo cheguei a uma região onde há um liso, uma espécie de pequeno deserto de areia. É certo que o Liso do Sussuarão tem uma grande importância na narrativa do Guimarães Rosa, pois os jagunços atravessam duas vezes tal lugar e, na primeira, quando Rioblado não era o líder ainda, não conseguem. Voltam famintos e matam até um macaco para comer, que depois descobrem que era um menino. Depois, com Riobaldo como chefe, o bando volta e atravessa o liso sei muitos problemas. Provavelmente a intenção dele era mostrar que Riobaldo era o grande chefe, com uma caravana muito mais forte, poderosa, mas bem armada, com muito mais gente, muito mais bem preparada, que  mandava batedores na frente. Então, eu segui os caminhos de Riobaldo nos mapas, ponto a ponto, até encontrar um liso perto de uma lagoa chamada de Lagoa Sussuarana, no extremo norte de Minas, já adentrando a Bahia. Creio que esse lugar pode ter inspirado Rosa. 

Folia de Reis na região de Ponto Chique, norte de Minas Gerais

EL. O senhor tem mais algum projeto envolvendo a obra do seu conterrâneo Guimarães Rosa? 

Não, no momento não. Pra dizer a verdade, quando me deparei com Grande Sertão: Veredasfiquei fascinado e, quando vi, tinha feito o Itinerário de Riobaldo Tatarana inteiro. Até já pensei em escrever um livro sobre os rios do Grande Sertão: Veredas, pois a obra de Guimarães Rosa é um manancial que não tem fim. Se eu quisesse, ficaria a vida inteira pesquisando esse livro. Mas fica a idéia para outros pesquisadores. 

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