O olhar e o ver

Monumento às bandeira, obra de Victor Brecheret, São Paulo

“Mais verossímil é conjecturar que o eventual artista é um homem que bruscamente vê. Para não ver não é imprescindível estar cego ou fechar os olhos.” 

Esta frase do escritor argentino Jorge Luis Borges tem sido uma referência para meu trabalho há anos e vai servir aqui como mote para falarmos sobre a capacidade de ver. Não apenas olhar, mas ver. Você pode olhar por horas uma paisagem, uma cena, e não ver um detalhe, um ângulo capaz de torna-las muito mais poderosas, poéticas. 

Costumo dizer aos meus alunos de oficina e em minhas palestras que para ver algo é preciso estar preparado. Sou capaz de citar muitos exemplos de pessoas que não viram o que poderia ter sido a essência de uma imagem, justamente por não estarem preparadas – concentradas, focadas, desejosas, para vê-la. 

Tenho muitos exemplos (talvez a maioria das minhas imagens sejam parte desse exercício de ver além dos que simplesmente olham), mas vou utilizar uma fotografia que tornou-se a capa do meu terceiro guia literário, São Paulo, literalmente, lançado em 2015.

Como escrevi no post anterior, o trabalho começa na pesquisa. Uma pesquisa bem feita é capaz de nos levar para a rua (seja para fotografar uma viagem, seja apenas para visitar lugares viajando) sabendo o que queremos ver. E prontos para surpresas.

E eu sabia o que queria. Durante toda a pesquisa para o guia literário, depois de ter lido tantos livros incríveis, tantos escritores monumentais (Mário de Andrade, Oswald, Guilherme de Almeida, Ferrez, Roberto Piva, Ligya Faguntdes Teles e muitos outros) senti que minha missão era buscar poesia nas ruas de São Paulo. A cidade do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas, da feia fumaça que sobe a apagando as estrelas, haveria de ter poesia em suas duras esquinas de concreto. E tem, claro.  

E foi com esse pensamento que lancei-me na desvairada pauliceia e passei a olhar com atenção para um dos monumentos mais emblemáticos (ainda que polêmico em alguns aspectos) da capital – o Monumento às Bandeiras, obra do modernista Victor Brecheret, inaugurada em 1953. Sabia que a literatura estava presente em duas frases do poeta Guilherme de Almeida esculpidas nas laterais da obra, mas eu queria mais que isso. 

Assim, dediquei vários dias a visita-lo, em momentos diferentes do dia, com luzes diferentes, que me davam nuances e ângulos distintos. Até que numa tarde especial, com um céu absurdamente azul e uma luz mágica aconteceu o que eu esperava.

Um pássaro pousou sobre as patas do cavalo de granito que puxa toda a cena. Percebi ali que a poesia brotava do concreto, que a minha busca tinha dado resultado. Fiz muitos cliques nos poucos segundos que a ave permaneceu parada. Fiz imagens verticais, horizontais, mais próximas, mais distantes…

Na mesma hora tive certeza que eu havia feito não só uma boa imagem, mas tinha feito a capa do livro que estava em gestação. Uma imagem que traduzia exatamente todo o conteúdo que viria depois da capa.

Foi um dia glorioso, desses que a gente lança um grito ao léu, tal como um jogador de futebol que marca um golaço, um músico que se delicia com um solo perfeito. 

Para concluir, arrisco dizer que aquele pássaro passaria despercebido (bonito isso, né?) de muitos olhos, de muitos observadores absortos, de muitos fotógrafos preocupados com seu equipamento e as traquitanas da tecnologia. “Para não ver não é imprescindível estar cego ou fechar os olhos”, escreveu Borges.  E isso vale para a fotografia. Isso vale para as viagens. Isso vale para a vida. 

capa do meu livro São Paulo, literalmente, lançado em 2015

Em tempo:  A frase do Borges abre meu novo guia literário, Buenos Aires, livro aberto – a capital argentina nas pegadas de Borges, Cortázar e cia.O lançamento está previsto para abril deste ano. Aguardem novidades. 

Meu novo filho em gestação. Aguardem lançamento para abril deste ano.


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