Encontro (mais que) literário

Hoje vou falar de um encontro literário que acontece em Lisboa, num lugar muito especial para mim (e para a literatura) conhecido como Alto de Santa Catarina, ou Miradouro do Adamastor, local encantador que permite uma visão privilegiada do rio Tejo até sua outra margem. 

Repare que no início do texto usei “acontece”, no presente, pois este encontro ocorre sempre que alguém estiver disposto a tê-lo. Eu já explico. 

Primeiramente é bom saber que os mirantes (ou miradouros) são essenciais para quem quer conhecer Lisboa, cidade construída sobre sete colinas, como atesta o próprio Fernando Pessoa em seu texto “Lisboa: o que o turista deve ver”, escrito pelo poeta em 1925. 

“Sobre sete colinas, que são outros tantos pontos de observação de onde se podem desfrutar magníficos panoramas, espalha-se a vasta, irregular multicolorida massa de casas que constitui Lisboa”

Final de tarde no Alto de Santa Catarina

Escrito originalmente em inglês, este texto difere muito da obra poética de Pessoa, e tinha como intenção criar um roteiro turístico por sua cidade. Cita, inclusive, o Alto de Santa Catarina, “um dos melhores sítios para se desfrutar de uma vista do rio”, prova de que foi frequentador do lugar. 

No Brasil, possui uma edição bilíngue da Companhia das letras, e foi a gênese do meu primeiro guia literário Lisboa em Pessoa.Mas isso fica pra outra hora.

Voltemos ao nosso encontro sem tirar de vista o poeta Fernando Pessoa, que tem como heterônimo Ricardo Reis, que, por sua vez, segundo seu criador, era outro grande frequentador do Alto de Santa Catarina. 

Ricardo Reis nasceu na cidade do Porto, norte de Portugal, em 1887, um ano depois do poeta fingidor. Era médico e defendia a Monarquia, razão pela qual se acredita que ele tenha ido morar no Brasil em 1919, quando o seu país recém-entrava na Primeira República. 

Ele reaparece pelas mãos do escritor José Saramago no livro O ano da morte de Ricardo Reis, lançado em 1984, no qual descreve longos diálogos de Pessoa (o criador) e sua criatura. Muitos desses encontros acontecem justamente no Mirante do Adamastor. E não paramos por aí. 

O Alto de Santa Catarina é chamado de Mirante do Adamastor porque bem no centro há uma grande estátua do Gigante Adamastor, figura importante da mitologia greco-romana que ficou imortalizada em Os lusíadas, de Luís de Camões, como um dos perigos do Cabo das Tormentas, o qual afundava os navios que por ali passavam. Quem também se referiu ao Gigante Adamastor foi Bocage, famoso poeta português nascido no século XVIII. 

Construído em 1883, o Alto de Santa Catarina continua muito bem frequentado, e a bela visão do Tejo e a tranquilidade ainda atraem os lisboetas.

A diferença é que agora há gente de todo tipo: jovens de várias tribos, yuppies, rastafáris, mauricinhos, turistas, crianças. Tudo isso num clima descontraído e até mesmo de “legalize já”, pois é comum sentir um cheirinho de maconha rondando o ar. Nada que deva assustar os visitantes, pois o clima é bem “da paz”, como costumam dizer seus frequentadores. Ideal para um fim de tarde acompanhado de um café ou uma cervejinha, servido num quiosque estrategicamente posicionado de frente para o pôr do sol. 

No enredo de O ano da morte de Ricardo Reis, o heterônimo de Pessoa visita o local quase todos os dias, onde fala da vista que dali se tem do Tejo e comenta sobre os velhinhos que frequentam o miradouro. No meu livro Lisboa em Pessoa, lançado em 2011 eu cito um trecho da obra de Saramago, acompanhado de uma foto

“Do alto de Santa Catarina oito séculos te contemplam, ó mar, os dois velhos, o magro e o gordo, enxugam a lágrima furtiva, lastimosos de não poderem ficar por toda a eternidade neste miradouro a ver entrar e sair os barcos,isso é o que lhes custa, não a curteza das vidas.”

Senhoras colocam o papo em dia no Miradouro do Adamastor

Saramago faleceu em 2010. Em sua trama, Pessoa (que desencarnou em 1935) tem longos diálogos com seu heterônimo, Ricardo Reisque morreu pelas mãos de Saramago em 1936, em Lisboa. No alto de Santa Catarina, os dois passavam tardes discutindo temas como poesia, política, mulheres e, claro, a morte. 

Mas continuam todos lá. Pessoa, Ricardo Reis, Saramago, Camões, Bocage… São imortais. E aguardam sua visita para mais um encontro. 

4 comentários em “Encontro (mais que) literário”

  1. Post adorável, como é adorável o Alto de Santa Catarina, um dos lugares mais inspiradores da deliciosa Lisboa! Me trouxe boas lembranças de lá ler você aqui. Adorável (de novo) coincidência é que nas minhas três vezes no Miradouro eu levei para ler ali justamente Pessoa e Saramago.
    Aproveito p-ara te contar que vivi uma experiência linda no Castelo de São Jorge recentemente, durante uma leitura de A história do cerco de Lisboa.
    Grande abraço, até a próxima quinta. Ah, o blog está elegantíssimo, aproveito pra perguntar: você recomenda o WordPress? Estou prestes a lançar o meu.

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    1. Ai…Claudia, que presente ler seu comentário. Fico muito feliz que vc esteja gostando. Tinha certa resistência, um pouco de medo, um pouco de preguiça…sei lá. Mas agora estou curtindo ter um dia pra compartilhar minhas histórias e não deixar algumas coisas se perderem no tempo. Quanto ao wordpress, sinceramente, não me sinto com propriedade pra falar. Eu ter conseguido montar o blog já me serviu. Muitos amigos entendidos dizem que é bom, então fui nessa.
      Grande beijo. Nos vemos na próxima quinta. Muito obrigado pelo carinho.

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