Entre sabores e notas musicais

Cada viagem tem uma história, um motivo que nos conduz àquele lugar especial, que nos conquista, entra em nossas vidas, nos transforma. Pode ser uma conversa com amigos, uma reportagem numa revista, um filme, um livro…

Nesse caso foi uma música. Aliás, uma música pouco conhecida de um compositor paraibano (muito conhecido) que me levou a uma região da Paraíba distante das praias e dos destinos turísticos da maioria. 

Estranho é uma canção de um paraibano de Catolé do Rocha, Chico César, do disco Beleza Mano, lançado em 1997, o mesmo que traz composições que viraram sucesso, como “Onde estará o meu amor” e “Se você for viajar”.  A primeira ficou conhecida na voz de Maria Bethânia, numa versão belíssima.

Estranho, posso dizer, é uma canção mais discreta, com uma letra curta, que fala de uma possível despedida.

Eu bem que avisei
Sou estranho
Não chegue tão perto assim
Vai por mim
Você fez que não ouviu
Tomou de conta
Fez de conta que era charme alfenim
Ai de mim
Agora quero ir embora
Embora não deseje o fim
Vai por mim

Bom…você pode ouvi-la antes de prosseguir a leitura, mas gostaria que você prestasse atenção numa palavra da letra: alfenim.

Você sabe o que é alfenim? Já havia ouvido/lido essa palavra? 

Pois eu não. E foi justamente essa palavra que me levou ao Brejo Paraibano, uma região que é conhecida por suas  baixas temperaturas, muita chuva e altitude mais elevadas, montanhosa.

Região do brejo paraibano

A partir de uma breve pesquisa com amigos paraibanos descobri que tratava-se de um doce tradicional do nordeste, muito pouco conhecido e quase em vias de extinção. 

A busca por mais informações levou-me a um dos poucos lugares do Brasil que ainda se produz o tal alfenim, a cidade de Areia, que possui 27 engenhos, muitos deles datados do século XIX e que nos remete ao auge do ciclo da cana. No Engenho Bujari, um dos mais preservados, a cana é moída e de seu caldo vão nascer diversos derivados da cana – o melaço, a rapadura, a batida e o alfenim. 

Bom… Se quiser mais detalhes sobre a produção do doce, anexei esse pdf com o texto da matéria que fiz para a extinta revista Estampa, suplemento cultural do jornal Valor Econômico, com a qual colaborei por alguns anos.

Página de abertura da reportagem da revista Estampa, suplemento do jornal Valor Econômico

Para concluir, a verdade é que essa história confirma o quanto a curiosidade nos move (ou deveria nos mover), e o quanto temos que estar atentos a mínimos detalhes e, assim, nutrir o viajante que nos habita. 

Uma única palavra dentro de uma música de poucas estrofes pode ser o início de algo saboroso. De uma viagem, de uma reportagem, de um ensaio fotográfico ou de uma história para ser compartilhada, como faço agora. E que ela seja inspiradora, que desperte desejos, que adoce a vida e os caminhos.  

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