A literatura no meio do caminho

Espero que não soe como uma dessas fábulas edificantes de superação, meio narcisistas, mas hoje vou contar a história de uma pessoa que teve a vida mudada pela literatura de forma contundente: eu.

O ano era 1987. Uma noite de sábado como outra qualquer para um jovem de 16 anos. Eu voltava para casa depois de um rolê na praça e no caminho fui surpreendido por uma música alta que saía de dentro da biblioteca pública de minha cidade natal, Leme, no interior de São Paulo. 

Resolvi ver o que acontecia naquele lugar que eu havia entrado raras vezes, pois até então o hábito de ler passava longe da minha rotina, salvo quando a escola me obrigava.

Qual foi minha surpresa ao ver um cara vestido de vampiro, correndo de um lado pro outro, enquanto cantava uma música esquisitíssima que falava de chupar o sangue dos meninos e das meninas, que ficava embriagado de alguém e que sentia na boca a saliva que já secou.

Foi assim que conheci Caetano Veloso, interpretando a música Vampiro, de Jorge Mautner, numa performance de um grande ser humano chamado Henrique Andrielli (1967-2009), jornalista, ator, palhaço e agitador cultural lemense que nos deixou muito jovem.  

Achei que valeria a pena postar a música, quem sabe aparece alguém que, como eu, não a conhecia.

Era o 1o Varal de Poesia de Leme, um evento cultural voltado à literatura, como me explicou Isabel Parolim, professora, escritora e agitadora cultural que viria a ser minha grande mestra da leitura, da música e da vida. Ainda é.

Ela comentou que os varais pendurados pela biblioteca eram pra gente escrever algo e pendurar – uma poesia, uma frase, o que quiséssemos. Até hoje não sei ao certo porque encarei a folha em branco e escrevi uns versos para uma paixãozinha adolescente que me rondava, dando minha tímida contribuição ao Varal de Leme. 

livro produzido durante o 4 o varal de poesia de Leme. Eu tenho poema nesse, mas não mostro de jeito nenhum.

Mas… algo mudou. Essas pessoas que citei acima e muitas outras, como Mario Zanca Neto, João Luís Bizachi, Lázaro Donadelli, para minha sorte, resolveram me apadrinhar. Um pouco mais velhos que eu, tinham experiência e tiveram sensibilidade para perceber que aquele menino franzino estava disposto a contribuir – assim, passei a fazer parte do grupo. No ano seguinte, meus poemas integravam a publicação do evento, brochuras simples mas que abraçavam os poetas lemense em torno de algo mágico chamado LIVRO.

Bel começou a me emprestar livros e mais livros, de poesia e de prosa, discos e mais discos, de músicas estranhas de pessoas com nomes estranhos – Hermeto, Gismonti, Geraissati (talvez isso vire um post). 

Foi então que percebi que o conhecimento e a arte podiam mudar minha vida, que a poesia podia mudar meus rumos, que o texto podia ser minha ferramenta de transformação – minha e de outros. 

E assim foi. As consequências desse dia me levaram ao jornalismo, à possiblidade de escrever sobre as coisas do mundo e ter na leitura uma obrigação prazerosa. Sigo jornalista, sigo apostando na força de eventos como o Varal de Poesia de Leme (que foi até sua sétima versão), sigo acreditando que a literatura e os livros são capazes de mudar a vida das pessoas. 

Bom…para não me alongar e ir ao que interessa (a literatura) resolvi selecionar três livros que saíram das estantes da Isabel Parolim e marcaram essa época. 

Papáverum Millôr, Millôr Fernandes. Este livro mostrou-me que a poesia pode ser síntese, pode ser bem humorada, pode falar das coisas simples do cotidiano. Lançando originalmente em 1967, traz pérolas deste carioca que atuou na imprensa, no teatro e na literatura. Faleceu em 2012, aos 88 anos. Justo eu, que comecei a escrever poemas enormes de amor adolescente, com estrofes e mais estrofes rimadas, fui percebendo outra forma de expressão.  Graças a esse livro, meus poemas foram diminuindo, diminuindo, viraram haicais e desapareceram.  

Distraídos Venceremos, Paulo Leminski. Lançado em 1987, ano da morte do poeta paranaense, esse livro foi importantíssimo para minha formação poética e política. Também me apresentou aos haicais, poemas que seguem uma estrutura japonesa de três estrofes (outro dia falamos mais sobre isso). Poemas como “Por um lindésimo de segundo” , “Merda e ouro” e “Sujeito indireto” me ajudaram a descobrir que arte só é arte quando subverte. 


Poesias, Mário Quintana. Este livro lançado em 1977 é uma coletânea de vários títulos do autor de Alegrete, RS. Destaco as frases-poemas de Sapato Florido, que traz delicadezas como “Carreto – Amar é mudar a alma de casa”  ou o poema “Exegese”, que praticamente moldou meu caráter e minha visão de poesia.

– Mas que quer dizer esse poema? – perguntou-me alarmada a boa senhora.
– E que quer dizer uma nuvem? – retruquei triunfante.
– Uma nuvem? – diz ela – Uma nuvem umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo…

No último ano da faculdade, em 1993, viajei a Porto Alegre para conhecer Mário Quintana. Aos 87 anos (faleceria um ano depois),  ele me recebeu em seu apartamento, já bem debilitado, assistido 24h por uma enfermeira, mas fez questão de fazer uma dedicatória no livro que eu carregava.  Poesias.

Encerro o texto de hoje com as palavras do meu amigo Mário Quintana. 

Repare que à esquerda há um poema de Manuel Bandeira para Quintana.

Nota: a partir dessa semana o blog Viagem ao Pé da Letra passar a ser publicado às quartas-feiras.

2 comentários em “A literatura no meio do caminho”

  1. Caríssimo Amigo,
    Gostei. Vem como depoimento pessoal, de há mais de trinta anos, lá em Leme, mas arde labaredas e faíscas neste carvão escuro e apagado do Brasil de hoje! Você conta direitinho como foi o seu bom começo. E, como diz Albee, em História no Zoológico, “a coisa mais importante da vida é a gente ter um começo” …
    Ou, não?
    Garoeiro

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