Com a palavra, Inês Pedrosa

Não vou entrar no mérito da eficácia e da real necessidade de um Dia Internacional da Mulher. Primeiro porque não sou mulher, não cabe a mim. E segundo porque não estou aqui para isso. 

Vou considerar apenas que as efemérides servem ao menos para uma coisa: fazer a gente lembrar (compulsoriamente) que um problema ou um fato (bom ou ruim) existiu ou existe. 

O oito de março, por exemplo, sempre me faz pensar em como a Literatura também reflete o machismo da sociedade – há muito menos escritoras (como há menos deputadas, rappers, engenheiras, advogadas) e elas são nitidamente menos valorizadas. Só para dizer o mínimo.

Este ano, como mantenho o blog semanalmente, a data (e as reflexões que ela me coloca) me fez lembrar de Inês Pedrosa, escritora portuguesa e autora de um dos livros mais incríveis que li nos últimos tempos – Nas tuas mãos

É também um dos que mais indiquei para amigos e amigas, tanto por sua força narrativa quanto por ser um livro que trata do universo feminino de forma arrebatadora.

Lançado em 1997, segundo livro de Inês Pedrosa, o romance apresenta a vida e a intimidade de três mulheres de uma mesma família, Jenny, Camila e Natália, de três gerações diferentes, ao mesmo tempo que nos aproxima de importantes momentos da história de Portugal, como a ditadura de Salazar e as Guerras de Independência das colônias portuguesas no Continente Africano. 

Uma delas é fotojornalista Camila, que protagoniza uma cena que eu fiz questão de inserir no meu livro Lisboa em Pessoa, e que se passa no Terreiro do Paço (ou Praça do Comércio), um dos lugares mais importantes e imponentes da capital portuguesa.

Lembro como se fosse agora, novamente emocionado, o dia que caminhei por aquele lugar amplo, grandioso, e imaginei a cena emocionante de Nas tuas mãos.

Terreiro do Paço ou Praça do Comércio, local de chegada das embarcações do alto mar.

Ela descreve a cobertura de uma cerimônia de condecorações a soldados que lutaram nas Guerras de Independência, a favor do exército Português. “Quando um menino de dois anos, ao colo da viúva sua mãe desfeita em lágrimas, recebe a condecoração do pai que já não tem, dois finos sulcos de água descem pelo rosto de Salazar”.

Embora tenha registrado esse momento raro, Camila recusa-se a entregar a foto ao seu editor. “Azar. Saiu completamente queimada”, alega. No laboratório, ela reflete: “sou caçada pela autenticidade da emoção dos olhos do velho solitário. Mas o autêntico não é necessariamente verdadeiro.”

Detalhe simpático do Terreiro do paço

A entrevista

Numa das ocasiões que estive em Lisboa para a pesquisa do Lisboa em Pessoa, em 2010, já encantado pelo Nas tuas mãos, resolvi entrevistar a escritora. Não somente por sua obra, mas porque ela era na época diretora do Museu Fernando Pessoa, um dos mais importantes da cidade, montado na casa onde o poeta viveu seus últimos 15 anos. 

A escritora Inês Pedrosa, que em acolheu carinhosamente no Museu Fernando Pessoa, em Lisboa.

Acrescento o fato de que quase todas as vezes que se tocava no nome de Inês Pedrosa a frase vinha acompanhada da expressão: “é uma escritora feminista”. Muitas delas vinham em tom positivo, às vezes nem tanto, outras como se o fato de ser feminista a colocasse numa caixinha meio separada do todo. 

No final da conversa, resolvi perguntar o que ela achava de ser chamada de escritora feminista, se isso a incomodava ou a enaltecia de algum modo. 

“Como escritora eu preciso entender a voz dos  homens, das mulheres…Quando o Flaubert escreveu Madame Bovary, por exemplo, ninguém foi perguntar se ele tinha uma escrita feminina ou masculina. E é uma escrita muito feminina. Na verdade, o que o escritor deseja é ter uma escrita própria, uma escrita nova, que traga na sua forma plástica algum acrescento ao conhecimento. E isso eu procuro. Agora… se é masculino ou feminino, eu espero que seja as duas coisas”. 

E finalizou:

“E sim, se você me pergunta eu digo:  eu sou feminista, sou feminista porque não é preciso ser um gênio da nossa sociedade para perceber o quanto o mundo é machista”. 

Boa leitura de Nas tuas mãos.


3 comentários em “Com a palavra, Inês Pedrosa”

  1. Oi, João, escrevi aqui um longo comentário sobre esse seu post, pra mim muito emocionante. Mas quando fui publicar… Puff, sumiu! Fiquei muito frustrada, havia comentado ali, movida pela memória afetiva das minhas leituras, o quanto Inês Pedrosa me é cara!
    Também havia citado o livro dela que mais me toca, o “Fazes-me falta”. Bom, mas tenho agora a chance de registrar de novo que este teu blog me faz muito bem. Sem me demorar muito, para não ser traída pela internet nada confiável aqui em Paraty, te deixo um abraço e sigo te lendo. claudiaferraz

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