A arte quando nos move

Já anunciei aqui que em breve lançarei meu novo guia literário, Buenos Aires, livro aberto, o quarto de uma série que começou com Lisboa, passou por Paris, São Paulo e agora chega à capital argentina. Na semana que vem tem novidades incríveis, prometo, aguardem. 

O fato é que nestas últimas semanas tenho pensado muito no quanto um livro pode mudar a vida das pessoas, o quanto a arte pode transformar a realidade de alguém, o quanto é possível tocar as pessoas com uma história, um exemplo.

Penso, logo escrevo. Como na semana retrasada havia contado sobre meu primeiro contato com a poesia, no post A literatura como caminho, hoje vou relembrar uma situação que sempre me emociona, toda vez que a recordo.

Favela, Lasar Segall, 1932

Aconteceu durante a produção do guia São Paulo, literalmente, em 2014, num dos museus mais legais de São Paulo. Eu visitava o Museu Lasar Segall, na Vila Mariana, uma casa construída em 1932 pelo arquiteto modernista Gregori Warchavichike que tornou-se a residência do pintor e de sua esposa, a tradutora Jenny Klabin Segall. Aliás, o museu também preserva a biblioteca de Jenny, que traduziu para o português importantes clássicos, como Fausto, de Goethe. 

Progrom, Lasar Segall (1954)

Quando cheguei à sala de exposição permanente do museu, onde estão as principais obras do artista, havia um silêncio que parecia perfeito para reverenciar obras importantes como Navio de Emigrantes, Progrom e Favela, que estavam ali, bem na minha frente. 

Como era, se não me engano, uma terça-feira à tarde, naquele momento não havia ninguém mais na sala além de mim e do segurança do museu, um rapaz simpático que observava tudo, impassível.

Ao me deparar com Navio de Emigrantes, que eu conhecia apenas de livros arte, tive a certeza que estava diante dessas obras nos paralisam, nos fazem procurar mais, encontrar algo além. Depois de observá-lo em total silêncio por alguns minutos, resolvi puxar assunto com o segurança da sala. 

— Tranquilo aqui, né?

—  Sim, tem dias que é bem tranquilo. Eu gosto quando tem monitores, historiadores, que contam uma porção de coisas legais sobre os quadros. Aí, quando estou sozinho, fico viajando neles.

— Ah..é? Em qual, por exemplo? 

—  Ah… muitos, mas esse Navio de Emigrantes, por exemplo, tem muita história.

— Hum… o quê, por exemplo? 

— Um monitor disse que o Lasar Segall pintou ele e a mulher dele nesse navio, mas que ninguém sabe ao certo qual é.

—  E você, tem algum palpite?

— Tenho sim.

O rapaz caminhou calmamente até o quadro e me mostrou um casal sentado sob o convés do navio. Tinha vários argumentos para tal escolha e, ao se empolgar com as próprias descobertas, me mostrou outras figuras que havia encontrado naquele quadro tão importante – o mar anunciando tempestade, as gaivotas, os barris, as nuvens, os sentimentos, as esperanças, as desesperanças…

Navio de Emigrantes, Lasar Segall (1914)

Naquela tarde aprendi muita coisa sobre os quadros de Lasar Segall, suas narrativas, sua simbologia. Sim, aprendi. Mas aquele foi, principalmente, um destes momentos servem para repor as energias e continuar lutando, acreditando que a arte pode mudar a vida de alguém. Aquele guarda, sem perceber, mudou a minha. Cá estou eu, contando histórias.

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