Minha querida Buenos Aires

Claro que hoje eu vou falar do meu novo guia literário, Buenos Aires, livro aberto, que acaba de entrar em pré-venda pelo Catarse. Não poderia ser diferente. 

Capa do meu novo guia literário, que está em pré-venda pelo Catarse

Mas resolvi falar dele a partir das imagens e não de textos literários ou biografias de escritores, como seria de se esperar. Um dos motivos é que, como em meus outros guias, as fotografias não são meras ilustradoras de lugares que vamos visitar. Elas são a alma de meus livros e uma forma que encontro de dizer o que mais de mil palavras não conseguem.

Além disso, com Buenos Aires, livro aberto tive a coragem de fazer algo que há tempos tinha intenção: fazer um guia de viagem com imagens em preto e branco, algo que considero um tanto ousado para este tipo de publicação e que tenta aguçar ainda mais o olhar do leitor, permitir outras leituras, colocar mais poesia no caminho. 

Bar La Perla de Caminito, uma pérola no bairro La Boca.

Primeiro repare que esta fotografia revela o que é apenas um detalhe na capa do meu livro – o interior do La Perla de Caminito, um dos mais tradicionais cafés portenhos, no bairro La Boca. Revelar o todo deste local encantador é uma forma de dizer que Buenos Aires merece ser vista nos detalhes, mas sem deixar de lado sua amplitude. Inaugurado em 1882, preserva o teto, o piso, o balcão e as mesas originais, sendo considerado Lugar de Interesse Cultural da cidade. Ele também está na lista dos Cafés Notables, uma seleção oficial de bares, cafés e confeitarias de grande importância para a capital argentina. São mais de setenta estabelecimentos que se espalham pelo centro e por diversos bairros. Muitos são do final do século xix, muito bem preservados, e outros tantos surgiram até meados do século xx, mantendo características originais. São parte importantíssima de nossa viagem por Buenos Aires.

Nos vidros de uns dos quiosques do interior da Galería Güemes renasce Marilyn Monroe, grande atriz do cinema estadunidense. Como você vai perceber, esta galeria é um portal para vários mundos.

Esta foto foi feita na Galeria Güemes, local importante da capital argentina, em plena Calle Florida, que nos leva ao conto “O outro céu”, de Júlio Cortázar, lançado em 1966, que integra o livro Todos os fogos o fogo. Nele, a personagem principal entra na Galería Güemes e sai na Galerie Vivienne, no bairro parisiense de Opéra, simbolizando a dupla nacionalidade do escritor, que viveu metade de sua vida em Buenos Aires e metade na capital francesa. Nesse conto, um dos mais conhecidos de Cortázar, o narrador deixa evidente a forte atração por lugares fechados, por galerias e passagens que fizeram parte de sua vida. Inaugurada em 1915, a Güemes foi construída em estilo art nouveau, e é considerada a primeira edificação erguida na cidade totalmente de concreto armado, algo inovador para a época. Nesta mesma galeria viveu o escritor francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), que morou no sexto andar entre 1929 e 1930. Foi ali que escreveu Voo noturno, publicado em 1931, um ano depois de lançar o clássico O pequeno príncipe. Mas isso só vou contar no guia.

Palacio Barolo, inspiração na Divina Comédia de Dante

Barolo é o sobrenome de um italiano pouco conhecido no Brasil, Luis Barolo, empresário do setor têxtil que resolver construir um edifício suntuoso inspirado na obra de um ilustre conterrâneo mundialmente conhecido, Dante Alighieri. Inaugurado em 1923, em estilo eclético, o Palacio Barolo está repleto de analogias e referências ao épico A Divina Comédia, um poema monumental escrito em dialeto toscano no século xiv e que influenciou poetas, músicos, cineastas e pintores no decorrer de seus mais de setecentos anos de existência. Durante a visita, descobrimos algumas simbologias ocultas na gigantesca estrutura de concreto, como a divisão em três partes que norteia a obra de Dante: Inferno (térreo e subsolo), Purgatório (primeiro ao décimo quarto andar, sendo que cada dois andares representam um dos sete pecados capitais) e Paraíso (do décimo quarto ao vigésimo segundo). A estrutura toda, por sua vez, possui cem metros de altura e um total de 24 andares, o que corresponde respectivamente ao número de cantos e de estrofes do poema. 

bolhas nas ruas de san telmo, durante a feria, buenos aires, argentina

As bolhas de sabão sempre me remeteram à leveza e à efemeridade da vida. Meu guia literário de Paris, À luz de Paris, começa com uma imagem de uma bolha e a frase do escritor Marcel Proust – “A verdadeira viagem do descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos”. Acho que as bolhas de sabão são um exemplo desse pensamento, pois permitem novas visões sem sairmos do lugar, através de sua transparência, multicolorida e disforme. Fiz esta imagem enquanto passeava pelo bairro de San Telmo, um dos mais charmosos de Buenos Aires, de um artista fazendo que soprava bolhas enormes. Lembrei que as bolhas de Paris, fotografadas anos antes, tinham sido feitas por um artista argentino. Foi uma boa sequencia de imagens, mas escolhi essa que me passa um certo desconcerto e me leva à algumas perguntas importantes: O que torna nossa vida poética? O que torna uma rua literária? O que torna o cotidiano mais colorido? Muitas vezes, uma simples bolha de sabão…

Edificio Kavanagh, inspiração para Ernesto Sabato em Sobre heróis e tumbas

Este imponente edifício é peça importante em Sobre heróis e tumbas, um dos principais livros do escritor Ernesto Sábato. Foi erguido a mando da milionária Corina Kavanagh, em 1936, e considerado o mais alto da América do Sul na época de sua inauguração. Conta-se que por causa de uma paixão não correspondida, Corina teria pedido aos arquitetos que levantassem o edifício tapando toda a visão que a família do seu ex-amante tinha da igreja do Santíssimo Sacramento, que fica bem próximo. Verdade ou lenda, o eclipse ocorreu. A igreja foi praticamente riscada da paisagem urbana da capital e para vê-la é preciso ir até a travessa que leva o nome da vingativa senhora. Recomendo aqui o filme Medianeras (2011), que tem um trecho que conta esta história.

Livraria El Ateneu Grand Splendid. Reparem que o palco é um café…quer mais?

Bom…essa imagem é só pra dizer que Buenos Aires tem uma das mais belas livrarias do mundo, montada dentro de um antigo teatro do início do século XX. É desses lugares de tirar o fôlego e fazer a gente sair falando palavrão, tamanha a emoção. Foi assim comigo. Quando você for a Buenos Aires, não pode deixar de visitá-la. E para conhecer um pouco mais de sua história eu sugiro um guia: Buenos Aires, livro aberto – a capital argentina nas pegadas de Borges, Cortázar e cia.

É só acessar: http://www.catarse.me/guiabuenosaires


4 comentários em “Minha querida Buenos Aires”

  1. nossa, João, está lindo o Guia! E o projeto como um todo. Parabéns!
    Quero comprar, mas estou achando um pouco complicado pela Catarse, na verdade estou sem tempo pra me informar melhor no site. Dá pra comprar online por onde, pela própria editora?
    Grande abraço e agrdeço por você me incentivar uma próxima ida à BA, com seu guia embaixo do braço.
    claudiaferraz

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    1. Oi Cláudia, muito obrigado, você sempre muito generosa. Bom…não é difícil comprar o livro não. Ele está na pré-venda pelo catarse. Você faz um cadastro que pode ser preenchido pelo facebook, rapidinho, depois é igual qualquer compra. É só escolher a opção.Se quiser comprar o livro com frete é a terceira opção. O legal é que vc comprando agora, você ajuda a nascer o livro e apoia bibliotecas comunitárias. Vai, lá, arruma um tempinho e apoia meu primeiro livro independente!!
      http://www.catarse.me/guiabuenosaires
      beijo e obrigado mais uma vez pelo carinho

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