Um João do Brasil

O escritor moçambicano Mia Couto.
- Alô, é Mia Couto?
- Sim, pois não.
- Oi Mia, meu nome é João Correia, sou um jornalista do Brasil e estou em Maputo. Gostaria muito de entrevistá-lo.
- Claro, se é do Brasil e se chama João provavelmente é boa gente. Vamos marcar.

Foi assim meu primeiro contato com o escritor moçambicano Mia Couto, autor de livros como Terra sonâmbulaAntes de nascer o mundoO fio das missangas e muitos outros. Terra sonâmbula, para mim, foi (e é) simplesmente arrebatador.

Lembrei-me desse episódio porque o escritor está no Brasil e, além de outros eventos, vai participar, na próxima sexta-feira, dia 12, de um bate-papo com o pessoal da rede LiteraSampa de bibliotecas comunitárias. Para quem não sabe ainda, este coletivo é parceiro no lançamento do meu novo guia literário, Buenos Aires, livro aberto, que está em pré-venda pelo Catarse

Mas…voltando.

Alguns dias depois estou no escritório da empresa do escritor (ele possui uma empresa que estuda impactos ambientais) e iniciamos a conversa.  A minha ideia inicial era fazer uma entrevista com ele para que falasse sobre a influência de Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa,  em sua carreira literária. Além de seu texto, que se utiliza de alguns recursos muito semelhantes aos que o escritor mineiro usava (a invenção de palavras, ou a união delas) tinha lido em algum lugar que ele era um grande admirador da obra – não por acaso, ontem, dia 9, Mia Couto participou do lançamento da nova edição da obra, em São Paulo. 

Dessa entrevista, publicada na revista Metáfora, em 2011, quero destacar um trecho que nada tem a ver com Grande sertão: veredas, mas sim com a militância do escritor durante as guerras de libertação de seu país do domínio português, na década de 1970. É a última pergunta e quase não entrou na reportagem:

Você fala em infelicidades inventadas, mas viveu períodos de guerra. Esse é o motivo de esse tema ser tão presente na sua obra?

“Vou te contar um episódio ocorrido quando eu tinha 17 anos e que pode ilustrar essa sua pergunta. Fui militante da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), na altura na clandestinidade, e havia uma coisa muito curiosa: para se oferecer à luta, havia uma comissão, também toda feita na clandestinidade, perante a qual você tinha que fazer algo que eles chamávamos de ‘narração do sofrimento’. Muito bonito o termo, mas você tinha que provar que merecia confiança e que a sua candidatura à causa revolucionaria era legítima, sendo que essa legitimação era feita pelo sofrimento. Comigo estavam pessoas com 30, 40 anos, pessoas pobres, de outra condição social, todos negros que viviam sob um regime de ditadura, um regime racista, e, enquanto eu esperava minha vez para fazer a narrativa, eu me perguntava: o que eu sofri? Quais foram meus reais sofrimentos? Eu tinha que pensar rápido, tinha que pensar rapidamente quais seriam esses sofrimentos que não tive nunca, para justificar-me. Eu pensei que não iam me aceitar e, no final tudo, quando me chamaram, eu disse mais ou menos assim: ‘eu sofri por causa de ver sofrimento dos outros, eu não passei fome, nunca tive carência, nunca fui discriminado racialmente, sou parte de uma elite privilegiada, mas todo o resto que eu inventei como ilusão de sofrimento foi tão real para mim como o sofrimento desses que passaram aqui’.  Depois de ouvir-me, ao final, alguém me perguntou: ‘Você é poeta, não é?’ Na altura eu tinha apenas publicados uns textos que ninguém conhecia, no jornal, mas eu disse, ‘sou’. E eles me disseram: ‘precisamos muito de poesia’. E fui aceito.” 

Se você quiser ler a entrevista toda, clique aqui.

Mia Couto no Jardim dos Namorados, em Maputo, capital moçambicana.

Jornalista abusado

Conversei com Mia Couto por cerca de 3 horas. Ao final, resolvi abusar da boa vontade do escritor e propus que fizéssemos uma segunda entrevista, sobre sua vida como biólogo (sim, Mia Couto é biólogo). Ele topou e no outro dia eu estava lá, gravador na mão, pilhas recarregadas e sorriso gigante no rosto. 

Essa reportagem foi publicada na Revista Nacional Geographic Brasil e costumo dizer que é uma das mais belas páginas da minhas carreira – graças às palavras dele, claro, mas assinadas por mim. É dessas coisas que a gente se orgulha de ter feito. 

Está aqui, na íntegra, mas vou também destacar a última resposta, que fala muito do que penso sobre a questão ambiental, sobre o ser humano e sobre o mundo. 

E quais são os principais problemas ambientais que o mundo deveria combater hoje? Como começar essa mudança de paradigma? 

“Os grandes problemas ambientais de hoje tem a ver com a miséria, como causadora e como resultante. As pessoas ficaram prisioneiras de uma lógica na qual sabe-se que não se deve destruir a natureza, mas que não há alternativas. Os grandes projetos de hoje constroem-se em função das mudanças macroeconômicas, que nem sempre representam uma melhoria real no bem estar das pessoas. A pobreza não me parece um bom indicador ambiental. A miséria polui. Pode parecer que estou fazendo demagogia, mas, por exemplo, a situação a volta das cidades é uma situação tão terrível que nenhuma outra poluição pode ser mais grave quanto o fato de as pessoas não terem condições básicas de sobrevivência. Dessa forma, o próprio modo de vida das pessoas deixa de ser sustentável, quer seja na cidade quer seja no campo. As pessoas passaram a ser predadores, e o fato é que não se pode lhes pedir que olhem para o amanhã como algo sustentável, afinal, elas não têm o que comer.” 

Uma pequena história

Para completar, gostaria de contar uma história singela que aconteceu depois, no terceiro dia que nos encontramos, com a intenção de fazermos algumas fotos para as entrevistas. 

Fomos a um lugar chamado Jardim dos Namorados. Andamos um pouco, conversamos e o escritor me contou que naquele praça, durante o período das guerras de independência, encontrava-se clandestinamente com quem viria a ser mais tarde a sua companheira. Na ocasião, disse Mia Couto, apenas fingiam ser namorados para passar informações sobre o andamento das investidas revolucionárias. 

Mais uma volta pelo jardim, mais alguns cliques e começou uma leve chuva. Nos abrigamos sob arvores e ficamos bem próximos a um casal de jovens que se unia em torno de um único guarda-chuva. O carinho e os olhares pareciam indicar que eram namorados (fazendo jus ao nome do lugar).

o escritor mocambicano mia couto

Mia Couto aproximou-se e em dois segundos já estava conversando com os dois jovens, carinhosamente. Contou a eles a passagem de sua vida ocorrida ali e indagamos se eram namorados. Eles disseram, pouco convincentes, que não, que eram apenas amigos.

Pareceu-me uma linda ironia. 

Mia Couto, com os óculos cheio de pequenas gotas de chuva, tinha nos olhos um brilho especial. Imaginem os meus. 

7 comentários em “Um João do Brasil”

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