Sons que humanizam

Resolvi continuar em Moçambique no texto dessa semana. Tenho motivos de sobra para falar de meu novo guia literário, Buenos Aires, livro aberto, em pré-venda pelo Catarse; poderia falar das chamas que consumiram totalmente uma dos maiores monumentos da humanidade, a Catedral de Notre-Dame (aliás, o primeiro post deste blog), mas achei melhor ficar em Moçambique – que, não podemos esquecer, sofre com a passagem do ciclone Idai. 

Talvez esse texto seja um grito (em forma de música) diante de tantos desafios que temos  enfrentado. É uma história simples, mas de extrema importância para mim, na medida em que me coloca diante do humano em seu estado mais puro, na medida em que toca neste tambor que bate dentro de mim. 

Em 2010 permaneci por 20 dias em Moçambique, acompanhando o trabalho dos brasileiros que atuam no organização humanitária Médicos sem Fronteiras. Produzia uma série de reportagens sobre cotidiano dessas pessoas incríveis, que certamente vão merecer um post em algum momento. Esse era o real motivo de minha ida ao Continente Africano – a entrevista com o escritor Mia Couto, que retratei no post Um João do Brasil,da semana passada, foi na verdade um brinde que a vida me deu. 

Depois de algum tempo em Maputo, a capital do país, peguei um avião até Lichinga, cidade a cerca de 2 mil quilômetros interior adentro. Havia médicos e enfermeiros brasileiros atuando na região e tinha a intenção de entender outras realidades do país. 

Cerimônia de posse do “regulo”, no distrito de Sabula, cidade de Lichinga.

Um certo dia, já em Lichinga, fui com uma das enfermeiras do MSF, Fernanda Cândido de Azevedo, a um pequeno povoado chamado Sabula, afastado alguns quilômetros da cidade. Era um desses lugares que costumamos ver em documentários pela televisão – um pequeno povoado de casas de palha e madeira, ruas de terra batida e uma imensidão ao redor. Fernanda entregou remédios, conversou com pacientes, afagou crianças que a rodeavam e ficamos ali por algumas horas.

De repente, comecei a ouvir um som que vinha de longe, um ritmo sincopado que crescia lentamente. Fui para a rua e me surpreendi com uma multidão que vinha em direção ao povoado. Pouco a pouco, a música começou a dominar todo o ambiente. Descobri que acontecia naquele momento a tradicional cerimônia de posse do régulo, uma espécie de líder do lugar. 

Subi na capota do carro do Médico sem Fronteiras e comecei a fotografar.  Ao descer, cumprimentei o régulo com um aceno, ele seguiu sua rota e fui imediatamente rodeado por homens e mulheres que cantavam e tocavam em ritmo firme e melodia envolvente. 

Coloquei minha máquina fotográfica no foco automático, tirei meu gravador do bolso e, num impulso incomum em meu trabalho, comecei ao mesmo a fotografar e gravar aquilo que acontecia na minha frente, a música que soava forte em meus ouvidos. Era como se eu quisesse guardar tudo, sorver todo aquele momento. 

The ceremony for the “régulo”, a kind of a leader of the village, happening during the service of Brazilian Doctors Without Borders.

Foi como um presente, um alento. Em meio à falta de estrutura, sondados pela miséria e o abandono do mundo, aquelas pessoas me ofertavam com o que tinham de mais profundo – a alegria e a transcendência da música, da arte, do que nos faz humanos e iguais. Transmitiam uma força de viver que nem mesmo as grandes tragédias conseguem apagar.  Nunca vão sair da minha memória.

Obs. Assim que voltei de Moçambique, a equipe da Mó Documental, coletivo de produção audiovisual do qual faço parte, fez um piloto de uma série de vídeos que contariam histórias breves de fotógrafos ao redor do mundo.  Eu conto essa história. E você pode ouvir a música que ecoou no texto acima. 

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