Cortázar: um escritor entre duas cidades

Na próxima semana a Companhia das Letras lança uma nova edição (e nova tradução) de O jogo da amarelinha, do escritor argentino Júlio Cortázar. Ambientado em Paris e Buenos Aires, reflete sua vida e sua obra, cujo imaginário divide-se entre as duas capitais.

Capa da nova edição de O jogo da amarelinha

Júlio Cortázar é um desses escritores que não pode ser considerado de um único país, de uma única cidade. Filho de argentinos, nasceu na Bélgica, mudou-se para Buenos Aires ainda criança e ali viveu até 1951, quando mudou-se para Paris, onde passou suas últimas três décadas. Faleceu na capital francesa, aos 69 anos, e está enterrado no Cemitério de Montparnasse, no bairro parisiense de mesmo nome. 

Sua obra, como era de se esperar, tem reflexos dessa dupla cidadania, essa dupla experiência que nos faz adentrar Buenos Aires e Paris, referências presentes em livros como Bestiário (1951), Os prêmios (1960), Histórias de Cronópios e de Famas (1962), Todos os fogos o fogo (1966) e, principalmente, em O Jogo da amarelinha (1963), cujos personagens trafegam entre as duas cidades.

No conto Ônibus, por exemplo, publicado no livro Bestiário, Clara, a personagem principal, toma o coletivo 168 no bairro de Villa del Parque, região leste da capital portenha, numa instigante viagem, na qual os passageiros carregam flores e a observam insistentemente, sem qualquer motivo aparente. 

Pela janela do veículo, podemos entender um pouco da geografia e da vida de Cortázar. Viveu de 1934 a 1951 na rua Artigas, 3246, bem próximo ao ponto de parada do 168, num conjunto de casas e edifícios construído no início do século XX. Um dos edifícios traz uma placa discreta, colocada em 2000 pela prefeitura de Buenos Aires, que anuncia que ali foi a morada do escritor. Foi seu último endereço antes de mudar-se para Paris, com 37 anos. 

Foto de Julio Cortázar na Librería de Ávila,
em Buenos Aires

A geografia cortaziana também nos leva a Plaza de Mayo, que tem ao centro o monumento conhecido como Pirâmide de Mayo, descrita na novela O exame final (escrita na década de 1950 e lançada postumamente em 1986) como local de um misterioso ritual, no qual milhares de pessoas adoram ossinhos colocados num um santuário improvisado. 

Ainda na região central, não podemos ignorar a influência dos cafés, confeitarias e galerias frequentados por Cortázar, como é o caso do London City Bar, da Confeitaria Richmond e da Galeria Güemes, que liga as movimentadas ruas Florida e San Martin. No London City Bar, por exemplo, há fotos e textos do escritor, e uma mesa que supostamente teria sido usada por ele com frequência.

Se o jovem Cortázar tinha como hábito passear a pé pelas ruas centrais de Buenos Aires, ao mudar-se para Paris, fez da capital francesa seu laboratório literário, flanando entre seus possíveis personagens.

Isso talvez explique a precisa geografia parisiense nos primeiros capítulos de O jogo da amarelinha, lançado em 1963, há 50 anos, nos quais são citados locais como a rue de Seine, Pont des Arts, Boulevard Sebastopol, Ponta au Change, Tour Saint-Jacques, Place de la Concorde, a região de Châtelet, as margens do Sena entre dezenas de outros. 

Cortázar também volta os olhos ao metrô parisiense. No conto Pescoço de gatinho preto, publicado no livro Octaedro, em 1974, o movimento dos vagões atua como catalisador de quase toda a trama. EmManuscrito achado num bolso, também de Octaedro, o personagem busca encontros nos subterrâneos parisienses, cujo mapa, segundo seu narrador, “define em seu esqueleto mondrianesco, em seus galhos vermelhos, amarelos, azuis e pretos uma vasta porém limitada superfície de subtendidos pseudópodes”. 

É nessas ruas e ambientes que seus personagens circulam, quando não estão em seus apartamentos discutindo literatura, filosofia ou simplesmente refletindo sobre a condição humana de latinos vivendo numa cidade europeia. Numa frase emblemática, o narrador diz num dos primeiros capítulos do livro: “Em Paris, tudo era Buenos Aires e vice-versa”. 

Galeria Güemes, Buenos Aires

A quem segue os itinerários desse Cortázar franco-argentino, também torna-se bastante emblemático o conto O outro céu, do livro Todos os fogos o fogo, no qual o personagem entra na Galeria Güemes, no centro da capital argentina, e sai em outra galeria, a Vivienne, no bairro parisiense de Opéra. Além de refletir a paixão de Cortázar pela atmosfera de tais construções, o conto simboliza a ponte entre as duas cidades, dois mundos unidos por um escritor único, universal, sem fronteiras.

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