A Aventura dos sentidos

Escrevi esse texto em 2006, para a revista Aventura e Ação. Foi um período que me envolvi em trilhas, escaladas, acampamentos e muita natureza. Foi também quando fiquei sabendo da história de Alexandre Alves Toco, um cara que havia ficado cego durante a infância e tornara-se uma grande referência de superação. Na ocasião, descobri que ele aproveitaria o carnaval daquele ano para enfrentar um novo desafio: atravessar os 30 quilômetros de trilhas do Parque Nacional do Itatiaia. Após seu retorno, conversamos por horas. Ouvi o relato de sua travessia pela serra fluminense e encantei-me com aquela grande aventura – a dos sentidos. Compartilho com vocês.

Antes de sair, Alexandre sentou-se calmamente no chão da varanda e foi apalpando um a um os objetos espalhados sobre o piso gelado. Precisava reconhecer a textura e o formato de tudo que colocaria em sua mochila: barraca, fogareiro, saco de dormir, roupas e outros utensílios que necessitaria nos próximos dias. Até aí, nenhuma dificuldade. Vítima de um glaucoma congênito, doença que provoca sérios danos à retina, começou a perder a visão assim que nasceu e, aos quatro anos, a cegueira total o obrigou a reconhecer objetos com as mãos. 

Natural de Miracema, cidade fluminense de pouco mais de 20 mil habitantes, Alexandre Alves Tôco foi o primeiro filho de uma escadinha de seis irmãos – “e olha que já tinha televisão naquele tempo”, brinca. Por conta disso, sua mãe não teve tempo de paparicá-lo ou de superprotegê-lo, como é comum nesses casos, e teve uma infância com independência, embora cheia de desafios.   “Eu ficava triste quando as crianças brincavam de coisas que eu não podia – futebol, pique, esconde-esconde”, conta, “preferia brincar de contar histórias, jogar dama, montar coisas”.

Hoje, aos 32 anos, mora sozinho na cidade de São Paulo. Seu desafio é agora algo inusitado, capaz de levantar sobrancelhas: vai enfrentar mais de trinta quilômetros de trilha no Parque Nacional do Itatiaia, também no Estado do Rio de Janeiro, entre o vilarejo de Itamonte e a cidade de Visconde de Mauá. Por sugestão da amiga Isabela Abreu, Alexandre inscreveu-se em um curso de liderança oferecido pela Outward Bound, uma organização não governamental britânica sediada em São Paulo que realiza projetos no Brasil voltados ao desenvolvimento humano, mas sempre com atividades ao ar livre. Conheciam-se do Grupo Terra, outra ong paulistana, da qual Isabela é uma das fundadoras, e que realiza atividades ligadas à natureza somente com pessoas com deficiência visual, sendo que Alexandre é um dos participantes. Sugerida a aventura, lá estava ele, bem disposto, com uma mochila de mais de 15 quilos nas costas. 

A equipe, além de Alexandre, era composta por mais oito pessoas, “entre elas uma senhora que trabalhava com turismo, dois estudantes de administração, uma professora de educação física que queria trabalhar com recreação, dois atletas, um fotógrafo…”, como ele mesmo descreve. Ninguém tinha contato ou familiaridade com pessoas cegas.

***

Na primeira alvorada, é o cheiro do café da manhã que desperta Alexandre. “Quem diria, queijo quente!”, exclama, sentindo-se ainda cheio de mordomias. Durou pouco. Depois do café da manhã, iniciava-se a primeira das quatro exaustivas caminhadas, num ritmo que Alexandre não estava nem um pouco acostumado. Embora a mochila pesasse sobre suas costas, o que mais o incomodava eram as perguntas que carregava na cabeça: “Eu conseguiria contribuir nas atividades mesmo sem enxergar? Será que eu acompanharia os outros nas caminhadas? Como caminhar num solo tão irregular e num lugar que nunca havia estado? O que seria melhor: pegar no braço de um colega ou segurar na mochila acompanhando os passos dele?”. 

Com um bastão na mão, que o auxiliava nas manobras e substituía a bengala, ele seguia sempre acompanhado por um dos integrantes da equipe, que se revezavam na tarefa. Em pouco tempo desenvolveram um código que permitia que o rapaz desviasse automaticamente de pedras e buracos, e andasse praticamente no mesmo ritmo dos outros aventureiros. 

 “’Pedra, cinco, à direita’, dizia quem me conduzia, e eu sabia que devia desviar de um galho a mais ou menos cinco metros da minha perna direita. Quanto a galhos, não tinha jeito; quando o meu condutor baixava a cabeça para se livrar de um galho, eu sentia isso pelo movimento da mochila e sabia que deveria fazer o mesmo”. 

Outra dificuldade estava nos vários tipos de terreno. Alexandre percebia as diferenças ora pelo caminhar, ora pelo movimento do companheiro, e tinha nas pedras seus grandes obstáculos. “Se você pode enxergá-las, pode estudá-las e não se deixar surpreender quando escorregam para o lado inesperado”, explica. Ao ouvir o timbre agudo das pedras se chocando, colocava-se atento. 

No segundo dia, lembra, foi obrigado a andar em caminhos estreitos, pé-ante-pé, algo nada usual para um cego. Entre as situações de maior perigo também estava a caminhada próximo a grandes desfiladeiros, algo comum em regiões de montanha, incomuns para Alexandre. Nessas horas, era avisado pelo companheiro e seguia o raciocínio de cair para o lado contrário do vazio, caso se desequilibrasse. Era algo que exigia mais concentração, já que um passo em falso poderia significar uma queda fatal. 

“Só pedia para que me avisassem quando o barranco terminasse, pra que eu não ficasse naquela concentração o tempo todo. Seria horrível, depois de meia hora, descobrir que não precisava mais andar tenso para um lado”, brinca.

Em pouco tempo Alexandre já percebia mínimas nuances de paisagens e caminhos – vales descampados tinham o vento contínuo, numa única direção; a mata mais fechada trazia cheiro doce e o som das folhas, as árvores enfileiradas em alamedas indicavam o caminho a seguir. Mal comparando, é assim também na cidade, quando ele atravessa ruas e percebe o ambiente ao redor. O ronco dos carros avisa onde está a rua; o salto alto batendo nas pedras da calçada indica que há uma mulher por perto; o calor do motor e a fumaça são sinais de que ônibus já chegou; sacolas de plástico em movimento, carregados por passantes apressados, indicam o fluxo do caminho. Quando não em demasia, o som é o maior trunfo de Alexandre. Nas trilhas, o simples raspar de calças e de mochilas, o arrastar dos bastões e o cantar dos pássaros serviam de guia. O quase silêncio ajudava Alexandre a perceber os movimentos do companheiro com total clareza. Em alguns momentos, quando parava para ouvir, era como se estivesse enxergando. 

Durante as longas caminhadas diárias, quem acompanhava Alexandre também dedicava parte do tempo à descrição da paisagem. “Eu achava egoísmo guardar para mim tudo aquilo. Até que chegou um momento que senti necessidade de contar”, diz Jairo Pires, estudante, um dos companheiros de viagem. Descreve com minúcias as encostas do vale, com suas reentrâncias verdes e algumas poucas árvores; e lá embaixo um cupinzeiro de quase dois metros de altura, cuja descrição chamou tanto a atenção de Alexandre que quis chegar mais perto para tocá-lo. O vento no rosto e as paisagens traduzidas em palavras o faziam lembrar das muitas vezes que saiu de carro com sua avó e ela ia descrevendo como era o mundo lá fora. “Para mim, uma nuvem era como o algodão, uma laranja era como o sol e a emoção de minha avó é que dava o tom de toda paisagem”.

Apesar de nunca ter visto um pôr-do-sol, uma montanha, uma árvore ou uma cachoeira, são essas descrições que ajudam Alexandre a compreender um pouco mais dos lugares por onde passa. 

***

As noites eram reservadas para longas conversas em círculo. Os instrutores da Outward Bound aproveitavam o momento para discutir questões relacionadas à filosofia do curso, à liderança. 

No momento de assumir tal função, realizada sempre em duplas, dividiu as atribuições com o engenheiro Cantídio Sampaio, que ficou responsável pelas tarefas que exigiam a visão e locomoção rápida – descobrir trilhas, procurar coisas, navegar etc. Alexandre delegava os afazeres e cuidava do acampamento – montar barraca, organizar a comida, lavar louça eram suas funções naquele dia. Aprendeu rápido, perguntando, dialogando, experimentando e, principalmente, buscando a postura ideal com os amigos. 

Também ensinou. A cada noite, a cada nova reflexão, todos foram percebendo que para ser líder, antes de qualquer coisa, era preciso auto-conhecimento, disciplina, organização, coragem e humildade, qualidades que Alexandre tem de sobra.

 Com o passar dos dias, quando a caminhada acumulava o cansaço de dezenas de horas em trilhas, o desafio de Alexandre era não desistir. O desconforto parecia levá-lo à conclusão de que chegara ao limite. Mas não. 

Sua motivação estava justamente na natureza, nos caminhos estreitos que ensinam que para viver é preciso muito equilíbrio, nas flores miúdas e delicadas que tateava nas horas de descanso, no vento que refrescava e no frescor inigualável da água da serra. 

No último dia, Alexandre havia concluído todo o percurso e acompanhado a equipe em todas as etapas da viagem. 

“Se eu tivesse que sintetizar tudo em uma frase, eu diria que foi uma experiência inesquecível rumo ao conhecimento de mim mesmo”, diz, ao final de sua jornada.  

Era hora de pegar a van e retornar a São Paulo. 

Um dia depois, como todos os outros integrantes, já havia retomado sua rotina de trabalho. Alexandre, formado em análise de sistemas, desenvolve e repara os softwares do Banco Itaú,  função que em nada lembram a palavra aventura. No entanto, para Alexandre não é bem assim; numa cidade onde nada é adaptado aos deficientes visuais, chegar ao trabalho pode ser um grande desafio. De seu apartamento, na Zona Sul, segue todos os dias a pé até a estação Conceição do metrô, e de lá segue para a estação Brás, onde pega o ônibus da empresa. 

Passa grande parte do dia no dia em frente ao computador, equipado com um software chamado JAWS (sigla do inglês Job Access with Speech),que transforma em som as palavras e números que aparecem na tela. Pode-se dizer que ele ouve seu computador. Aliás, é maluco por computador. Em casa, um sistema digital de leitura chamado OCR(do inglês, Optical Character Recognition)ligado a um scanner,é capaz de reconhecer os caracteres da página de um livro e transportá-los para um arquivo digital. Assim ele consegue ler tudo que deseja, sem depender de exemplares em braile ou falados, no Brasil ainda insuficientes. Adora ler filosofia e história – “gostei muito de ´O mundo de Sofia´”,conta, referindo-se ao livro do escritor norueguês Jostein Gaarder. Uma das primeiras coisas que faz quando chega é ligar seu computador, que possui também o sistema JAWS. Lê, ouve música, responde e-mails e conversa com os amigos, via programas de bate-papo, como o messenger e o skype – usa os dois. Se quer encontrá-lo, é só se conectar. Foi assim que o conheci, ao receber o e-mail de um amigo de Isabela, o fotógrafo Antonio Calvo, que é meu amigo e repassou um depoimento de Alexandre sobre a viagem. Mandei-lhe uma mensagem e ele sugeriu conversarmos, on line. Foram horas de papo, quase sempre via computador. 

Pouco a pouco, tornei-me um grande admirador de Alexandre, esse rapaz corajoso, que eu reconheço pela voz confiante, sempre bem humorada, que sai das caixas de som sobre minha escrivaninha; esse rapaz de um metro e setenta e seis, 86 quilos, olhos castanhos, cabelos curtos e escuros, como ele mesmo se descreve.Esse rapaz que eu nunca vi.

 

2 comentários em “A Aventura dos sentidos”

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