Como (e porque) não fotografar em viagens

Começarei por uma pequena e reveladora história. No início de 2013 embarquei em uma série de viagens organizadas pelo Turismo Social do Sesc. Tinha como missão fotografa-las, mas sem me preocupar com os lugares em si, com paisagens e lugares exóticos, registrando apenas a forma como os integrantes de cada roteiro se relacionava com o ato de viajar. 

Minhas imagens fariam parte de uma exposição fotográfica intitulada Revisitada, que aconteceria no Sesc Bauru, a 330 quilômetros da capital, em maio deste mesmo ano. E assim foi.

Em uma dessas viagens, lembro-me, fiz cerca de 600 imagens, durante os cinco dias do roteiro, com uma média de 120 cliques por dia, algo que me pareceu razoável, embora hoje em dia possa parecer pouca coisa para a maioria das pessoas e fotógrafos da era digital (que não tem o custo do filme como limitar). 

No decorrer da empreitada, atento a tudo e todos, fui percebendo que algumas pessoas fotografavam exaustivamente, quase que compulsivamente. Muitas vezes, antes mesmo de ouvir as informações dadas pelos guias, alguns saíam em busca de registrar o que viesse pela frente, sem ao menos saber do que se tratavam os cenários e contextos. Diante de construções seculares (estávamos na região das Missões Jesuíticas, no sul do continente) parecia haver pressa de guardar imagens, recordações em cartões de memória.

Em meio a essa comportamento, chamou-me a atenção um rapaz de trinta e poucos anos que apontava sua lente a tudo que via e praticamente não tirava os olhos do visor do equipamento. Havia uma gana tão grande em registrar tudo que não me contive. Ao final do passeio, curioso, perguntei a ele quantas imagens tinha feito ao todo, durante os cinco dias que estivemos juntos. A resposta foi assustadora: 1800! Ou seja: ele havia feito três vezes mais fotografias que eu, que estava viajando exclusivamente para registrar a viagem. 

A cifra do garoto dava uma média de 360 cliques por dia, 15 cliques por hora, considerando as 24 horas que um dia tem. Se consideramos que ele dormia durante oito horas teríamos 16 horas e uma média de 22,5 fotos por hora, uma a cada três minutos… Tudo sem qualquer anotação ou marcação que livrasse tantas imagens de um destino certo: esquecimento em uma pasta do computador.  

Pois os números, que me pareceram absurdos (considerando ainda que havia a hora do café da manhã, do almoço, do jantar, do descanso e dos traslados), chamaram a atenção e me levaram a refletir sobre o porquê e o quanto devemos fotografar durante as viagens. 

Desde então, esse vem sendo um dos grandes questionamentos do meu trabalho como profissional, pontos de interrogação para um fotógrafo (sub)imerso num mundo de imagens, numa sociedade de clicks e likes. 

Algum tempo depois, passei a discutir em minhas oficinas e palestras textos de autores que abordam o assunto, como filósofo suíço Alain de Botton, que em seu livro A arte de viajar, aborda o tema de forma prática e clara: “Em vez de usar a fotografia como um suplemento para um modo de ver mais ativo e consciente, eles a usavam como uma alternativa, prestando menos atenção no mundo do que tinham prestado antes, com base na crença de que a fotografia automaticamente lhes garantisse sua fruição”. 

Da mesma forma, em um de seus mais importantes livros, a crítica de arte e ativista norte-americana, Susan Sontag, declarou:Um modo de atestar a experiência, tirar fotos é também uma forma de recusá-la — ao limitar a experiência a uma busca do fotogênico, ao converter a experiência em uma imagem, um souvenir”. Sobre fotografia, obra lançada no Brasil em 1983, traz uma série de reflexões que passaram a nortear meu caminho como fotógrafo ligado ao turismo, autor de guias de viagem e um jornalista que tem o viajar como parte da profissão. De forma relevante e precisa, Susan e Allain discutem a relação entre imagem e sociedade e nos permitem compreender as diferenças entre o olhar viajante e a cegueira digital que nos espreita. 

Nos ajudam ver além do aparente, nos propõem a postura de desbravadores e não de meros consumidores de imagens, aos quais a fotografia é uma mera muleta para o olhar, um símbolo do acúmulo de bens e de um viajar calcado no status social, no “eu estive lá e eis aqui a minha prova”. 

Mais tarde, tais reflexões passaram a fazer parte de meu dia a dia de forma mais contundente, a ponto de propor aos amigos e alunos de fotografia uma série de alternativas a esse ato ao mesmo tempo tão importante e tão desgastado. Afinal, nunca fotografamos tanto, e nunca olhamos tão pouco. 

E é com base em tudo isso que proponho a você que chegou até aqui na leitura: na sua próxima viagem, não fotografe! Ou pelo menos não fotografe tanto. Aproveite sua viagem para simplesmente contemplar, para guardar na memória que já vem embutida em você. Ou aproveite para ler um livro (pode ser inclusive um que se passe no lugar de sua viagem), para escrever, para registrar em texto os melhores momentos do roteiro, para desenhar (vai ver que nem precisa ter grandes dotes artísticos para esboçar o mundo), para caminhar (às vezes sem rumo), para conversar, para sentir cheiros, gostos…Vivencie cada momento e viva sua viagem de forma integral, para muito além do clique, sem cair na falsa necessidade de registrar tudo e todos, sem se deixar levar pelo narcisismo dos selfiese dos paus de self. 

A partir de agora, tome isso com um desafio pessoal, entre eu e você, mesmo que seja em uma única viagem, mesmo que por um dia. Garanto que você vai perceber que, ao adotar o não fotografar, surgirão infinitas possibilidades de aprendizado sobre a imagem, sobre as formas de apropriação de uma viagem, sobre o que o tornará um viajante mais atento, mais observador, mais ativo e, ironicamente, um melhor fotógrafo. 

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