Milagre literário

No próximo mês, acontece uma das mais tradicionais festas religiosas do país, a Festa do Senhor Bom Jesus de Iguape, com mais de 300 anos de tradição. É quando esta pequena cidade do litoral paulista, a 175 Km da capital, recebe milhares de pessoas atraídas pela fé, pela religiosidade e pela crença de uma pedra milagrosa que não para de crescer e pode mudar a vida das pessoas. 

Bom…talvez você esteja se perguntando, mas o que isso tem a ver com literatura? 

A cidade de Iguape, litoral sul de São Paulo

É que em 1949, o escritor franco-argelino Albert Camus, autor de clássicos como A pesteO estrangeiro, fez uma visita ao Brasil e incluiu no roteiro esta festa. Em 1957, mesmo ano que foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, publica o conto “A Pedra que Cresce”, texto presento no livro O exílio e o Reino, no qual narra as manifestações religiosas presenciadas na visita. 

Uma das mais antigas povoações do Vale do Ribeira, fundada em 1538, Iguape foi o cenário da viagem de d´Arrast, personagem de Camus, um engenheiro francês contratado para construir uma represa no local, e que chega justamente nos dias da festa. 

procissao do bom jesus de iguape

Já Camus chegou a Iguape na madrugada do dia 5 de agosto, debaixo de chuva, acompanhado do escritor Oswald de Andrade, seu filho Rudá de Andrade, Paul Silvestre, adido cultural francês, e um motorista, cujo nome não é citado, mas que recebeu (de Camus) o apelido de Augusto Comte. Em vez de ir para um hotel, ou para a casa de alguma autoridade local, o escritor foi estranhamente hospedado no hospital Feliz Lembrança, nos arredores da cidade. O provável motivo do fato inusitado é a grandiosidade da festa, que faz lotar todos os hotéis, pousadas e casas da cidade. Já era assim na década de 40. Hoje em dia, a população passa de seus 50 mil habitantes para a casa dos 200 mil. 

Hospital Feliz Lembrança

No caso de Camus, a viagem fora marcada em cima da hora, por sugestão de Oswald. De qualquer forma, sua passagem pela cidade ficou registrada no livro de visitas do hospital, dia 7 de agosto de 1949, ocasião que deixou uma mensagem escrita em francês: “Ao Hospital ´Feliz Lembrança´ que traz tão bem o seu nome, com a homenagem calorosa a este Brasil que aboliu a pena de morte e a esta Iguape onde a gente compreende esse gesto”. A tradução, logo abaixo na página, foi feita por Oswald de Andrade e reflete as preocupações do escritor na época da visita. Hoje, o hospital está abandonado, em ruínas, e as páginas amareladas de seu Livro de Visitas representam a memória de um tempo que uniu os dois escritores.  

A fé que cresce

Nos arredores da cidade, a cena que presenciamos nos dias de hoje é a mesma que impressionou o escritor: centenas de fiéis em fila, diante de uma pequena gruta, tentando conseguir lascas de uma pedra que teria poderes curativos, milagrosos. Além de curar doenças, teria a fantástica propriedade de continuar crescendo de acordo com a fé de quem as leva. Não é à toa que, de tantos fatos e cenas marcantes na viagem do escritor, essa foi uma das que mais ganhou destaque em sua obra. 

O ritual descrito na literatura de Camus nasceu com a própria Festa do Bom Jesus, e teria surgido porque os homens que encontraram a imagem do santo pararam para lavá-la numa fonte próxima à Iguape. Surgiu então a história de que a pedra sobre a qual a imagem foi lavada passou a crescer ininterruptamente.

O resultado dessa fé é que hoje, no lugar da pedra onde foi lavada a imagem, há um grande buraco, coberto por uma cúpula arredondada, que obriga as pessoas a descerem por uma escada para pegar o rústico amuleto. Para facilitar a vida dos visitantes, rapazes fazem o serviço pesado e descem com marretas para retirar as pedras, oferecidas aos fiéis a troco de uma “ajuda”. Ganham 1, 2 e até 3 reais por um bom pedaço da pedra milagrosa, o que permite ganhar 20, 30 reais em poucas horas. Talvez aí esteja o verdadeiro milagre.

fieis retiram pedras durante a festa de bom jesus de iguape

Outro ponto importante de A Pedra que Cresce está nas descrições que Camus faz da procissão, ponto alto da festa, quando a imagem do Bom Jesus sai pelas ruas da cidade, “cajado na mão, a cabeça coberta de espinhos, sangrando e cambaleando por cima da multidão que lotava os degraus do adro”, como ele mesmo descreve. 

O cortejo começa e termina na Basílica do Bom Jesus, na praça central, num trajeto de pouco mais de um quilômetro, no qual uma incrível multidão segue rezando, pagando promessas ou simplesmente agradecendo em silêncio. É realmente uma imagem impressionante, que também impressiona o engenheiro d´Arrast. Envolvido no clima da cidade, ele acompanha um dos penitentes, conhecido no texto como “cozinheiro”, que carrega um bloco de 50 quilos na cabeça como forma de agradecimento por ter sobrevivido a um naufrágio. A relação entre os dois é um dos pontos altos da narrativa. 

Depois da procissão, quando o Bom Jesus volta para a Basílica, é que as ruas começam a esvaziar, os romeiros começam a desmontar suas coisas e se preparar para o retorno. Pouco a pouco, Iguape vai recuperando a calma costumeira, de cidade pequena, com o coreto na praça, o rio silencioso, as pessoas tranqüilas, sem dar indícios da força misteriosa que possui, e que encantou Albert Camus. 

A América de Camus

A passagem de Albert Camus a Iguape foi parte de uma grande viagem que fez pela América do Sul entre os dias 30 de junho e 31 de agosto de 1949. Além de visitar o Brasil, onde esteve em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Fortaleza, realizou conferências em Buenos Aires, Santiago e Montevidéu. Sua passagem por esses países está registrada no livro Diário de Viagem, que reúne as impressões do autor. A viagem ocorreu num momento em que Camus sofria com uma tuberculose mal curada e parecia estar em depressão, o que é bastante nítido no tom de seus textos literários e nas suas anotações de campo. 

Filho de emigrantes franceses, nasceu na Argélia em 1913, onde passou sua infância e grande parte da juventude. Além de A PesteO EstrangeiroO Exílio e o Reino, tem entre suas principais obras O Homem Revoltado e O Mito de Sísifo.Faleceu em 1960, na França, vítima de um acidente de automóvel.

Para quem quer ir

A festa do Bom Jesus de Iguape acontece todos os anos de 28 de julho a 6 de agosto. Para quem deseja conhece-la, é bom reservar a acomodação com muita antecedência. De São Paulo são 175 quilômetros, seguindo pela Rodovia Regis Bittencourt (BR 116) e depois pela Rodovia Estadual Prefeito Casimiro Teixeira (SP 222) até a Iguape. Ah…e não esqueça de reservar um lugar pra ficar. O Hospital Feliz Lembrança não aceita mais visitantes.

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